segunda-feira, 28 de abril de 2014

O dia em que eu recebi meu cartão de crédito

Há algo de errado em entrevistas de emprego. Todos são proativos, sabem lidar com o grupo e trabalhar em equipe. Todo mundo aprende rápido e possui flexibilidade, seja ela emocional, temporal ou outro bla bla bla. Mas no fim, todo mundo é um nada. Ninguém diz na entrevista de emprego que rói a unha ou que tem oscilações de humor nas manhãs de segunda feira. Ninguém conta que procrastina os trabalhos da sexta feira. Se os currículos fossem todos iguais, o critério utilizado para seleção das pessoas nas empresas seria preferência culinária, habilidades artísticas e desenvoltura esportiva.
Na caixa de correio hoje pela manhã, descobri uma carta do Banco. Um cartão de crédito com meu nome, com data de vencimento para daqui há 6 anos e com uma insígnia internacional.  Não veio dizendo que crédito na verdade é um dinheiro que você pode gastar apesar de você não o ter. Não explicaram os seguros que você vai se cadastrar sem ao menos saber.
Sabe o que eu sou?

Sou aquelas letras minúsculas que aparecem no canto esquerdo dos anúncios da tv. Letras essas que as empresas são obrigadas a colocar com os requesitos necessários para aquela promoção superextraordinária ser cumprida. Esse sou eu. Sou o aviso de erro que ninguém lê.

Todo mundo é um pouco daquelas letras minúsculas, perdidas no fim do comercial. Mas todo mundo quer ser a letra de amor do chico. Todo mundo é sem preconceitos e tolerante. Todo mundo tem bom humor na segunda feira.
Até mesmo a subversividade é nula. Tudo poderia ser substituído pelo equilíbrio da natureza. Sem a gente por aqui. Seguindo apenas o equilíbrio natural que as coisas tendem a seguir.

Mas então, neto. Tudo isso aqui faz parte do equilíbrio. O que seria  do equilíbrio se uma das partes não tendesse para um dos lados? E o que seriam das partes se elas não corressem atrás da própria gana, da própria bizarrice, se não levantasse as próprias bandeiras e cantasse as músicas que os representam. Até os que não levantam bandeira nenhuma, lutam pela causa individual de poder ser livre para não levantar bandeira nenhuma. Mas a gente nasce livre. Não é difícil perceber. LIVRE

LIVRE pra dizer que não precisa tomar refrigerante para arrotar, pois ao longo dos anos você aprendeu uma técnica revolucionária para utilizar o próprio ar atmosférico para produzir sons guturais na mesa do almoço com seu chefe. E ele rir.
Para dizer que, segundo a psicologia, você tem tendências suicidas e tristeza aguda mesclada com depressão, que na verdade é só aquela vontade de não existir que aparece quando você perde o ponto de ônibus e tem que andar 1 km ao invés de 100 metros. Aquela vontade de explodir que te dá ao perceber que a notícia mais relevante do jornal da tarde é sobre o buraco da rua que você passa todos os dias. Aquela vontade que te dá quando pensa nos amores que você não superou e em todas as possíveis candidatas que você teria a futura namorada se não fosse um merda que não acredita nem em si mesmo. Aquela vontade de que um cometa exploda o chão da terra quando percebe que o universo é cego.

Mas na verdade, você não é livre nem pra dizer que escreve textos às 3 da manhã sem que não haja nenhum retorno para você. Nem pra dizer que não quer morrer sozinho e que na verdade você queria namorar aquela guria. Não sinto.
Ser livre pra ser eu mesmo? Piada do mundo moderno. Partindo do dia de hoje, eu sou apenas o número do meu cartão de crédito.

terça-feira, 22 de abril de 2014

ronaldo

E na final da copa de dois mil e dois, ronaldo chuta a bola num rebote e bota pro gol. E depois, numa jogada um tanto bonita, mais uma vez coloca pra dentro do gol a bola, junto com a derrota da Alemanha e o sorriso no rosto dos brasileiros. Não tenho certeza como foi o decorrer da semana no país, mas no mínimo, ganhamos feriados para a ressaca. Porque trabalhar se o Brasil ganhou a copa do mundo ontem? E eu não estou reclamando, dizendo que brasileiro é preguiçoso e todo aquele blah blah. Não trabalhar faria tanto sentido quanto ir trabalhar.
Eu tinha seis anos e admito que não lembro de muita coisa. Não lembro como reagi, como meus pais reagiram. Mas lembro que eu estava errado."Mas errado porque?"
Porque eu fui o espermatozóide vencedor.
A culpa é do rato. Do rato que eles tentam pegar todos os dias mas não conseguem. A falta de sentido do queijo que poderia alimentar algumas bocas famintas. Mas o erro é meu. Ronaldo, com seu cabelo ridículo se tornando herói de um povo. Ronaldinho sendo substituído nos últimos momentos. Kaká, que ninguém sabe ao certo se entrou ou não no jogo. Felipão. Galvão Bueno.
E onde eu estava?

Todo mundo em seu lugar, fazendo suas coisas. O que mais eu poderia fazer se não fizesse minhas coisas? As coisas. Respirar forte. Suspirar, como dizem. Brigar com o mundo para conseguir a primeira transa. Usar camisinha para não pegar aids e para não ter filho.
Para não ter filho. Inibir a minha natureza humana e meu instinto animal para suprir meus desejos. Inibir o mundo.
Mas e se na fábrica, a camisinha não passasse por uma verificação, se o engenheiro de produção não tivesse planejado bem e o mecatrônico tivesse esquecido daquela linha do código em COBOL.
Deus do céu, saber que sou um sequência de erros não me faz querer levantar da cama, querer um bom emprego ou aprender a tocar aquela música no bandolim.
A vontade de apertar o delete e segurá-lo é sempre válida. Está sempre aqui comigo.
Mas a culpa é do rato.
O fodão é Ronaldo.
A rola grossa quem tem é Alexandre Frota, que lê bukowski e não tem preconceitos contra travestis. Aquele site pornô, aquela revista de fofocas.

A fraqueza do dia a dia dá um pouco de forças praqueles que pegam menos no supino. E corre. Corre, josé. José não anda mais.

Ronaldos sendo registrados em cartórios. Ronaldos sem talendo nato pro futebol. Ronaldos dirigindo empresas. Toda forma de poder é ilusória se um dos lados deixar de existir. Eu não existo. Mas para negar a existência, é preciso que exista algo. E no algo: eu renasço. Ressurgindo das cinzas. Sem entender o cheiro de queimado. 
Joãos sendo registrados. Mas joão não foi herói. João não ganhou copa, não dirigiu empresas. João afogou Jesus Cristo num rio de forma tão rápida, que acharam que ele tava lavando o cabelo dele. João enxugou os pés de Jesus. João não era a luz, mas era a testemunha dela.
Os ronaldos possuem pés, chuteiras e talentos natos. Os ronaldos jogam bola, comem travestis. Colocam culpa na tireoide para o sobrepeso. Mas ninguém era obeso em auchvitz. Nem todo mundo sabe escrever alemão. Nem todo mundo sabe traduzir Nitche sem usar as notas de rodapé.

Certa vez conheci um cara chamado Vênus. Ele tinha uma camisa legal. Ela era furada. E boa parte da minha melancolia nasceu por causa do inglorioso fato da camisa de vênus estar furada.
Eu estou sempre atrasado. Nove meses de atraso, baby.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, Luiz Felipe Pondé

Estou ficando velho.
Mas isto pouco tem a ver com o fato de estar saindo finos pelos dos poros de meu rosto. Pouco tem a ver com o tamanho do meu pênis ou com a minha altura. Cheguei à conclusão de estar ficando velho porque tenho dado mais atenção a minha cama, com meus livros, minhas músicas absurdas e meus pensamentos mal amados do que para o mundo-lá-fora, por trás da janela (ou seria à frente da janela?). Parece que eu fui acordado e ainda não tenho controle total de minha consciência. Mas sei que fui acordado. Eu mesmo me acordei. Me obriguei a sonhar com uma queda e acordei antes de tocar o chão onírico.
Estou velho. Os shoppings estão cheios de pessoas que eu evito, as lojas de departamento, as lanchonetes. As casas dos meus amigos. O mundo virou um churrasco na laje e meu corpo recusa as carnes.

Politicamente correto é bem mais do que se imagina. É uma fórmula extremamente bem elaborada, que apesar de não fazer sentido, foi pensada de tal forma que não é possível refutá-la aos olhos de quem a usa. Eu diria que  é um mecanismo do mal em uma embalagem do bem. E Pondé vai lá e coloca uma etiqueta na embalagem informando: "Imagens meramente ilustrativas".
"Imagem meramente ilustrativa" é um artifício criado pela publicidade para dizer na sua cara que está mentindo com o único e meticuloso objetivo: fazer você comprar determinado produto. Mas que meio mais idiota é esse? Mentir para alguém, dizer que está mentindo e ainda fazer esse alguém comprar o produto por meio de uma mentira "autorizada"?

Bem vindo ao mundo moderno.
E sabe o pior? É necessário que existam pessoas idiotas o suficiente para não enxergar o "imagens meramente ilustrativas". É preciso gente idiota pra enxergar e comprar mesmo assim. No geral, é preciso gente idiota.
E nesse quesito, o mundo supera as expectativas e a mágica acontece: temos mais gente idiota do que pessoas espertas. E os espertos carregam o mundo.
Há os idiotas espertos, mas esses não carregam nada. A não ser os próprios medos e o rabo entre as pernas.

Pondé, na verdade, transformou muitos dos meus pensamentos corriqueiros e cotidianos em teorias, sustentadas por nomes e obras acadêmicas e literárias. Foi como uma extensão das minhas indignações. O livro não foi mais fantástico por eu não ser o público alvo. Pondé escreve com uma certa raiva na pena, que eu compartilho. Mas a raiva dele direciona a escrita a atingir alguém com força. Como um soco. E pra mim, o livro não foi como um soco. Eu já estava socando o mundo moderno há tempos, o livro apenas me deu mais força. Gritou algumas palavras de incentivo à beirada do ringue. E a torcida esperava tudo de mim. O mundo nas costas.

Me parece ser um leitura necessária para a maior parte dos jovens adolescentes que usam a internet, as redes sociais. Para os que ainda tem esperança na faculdade, que acreditam no ensino médio. Para os vegetarianos, leitores do Tumblr e editoras de blogs de moda. Para os professores do ensino público e para os administradores dos grupos do whatsapp.

E ao longo da leitura, eu pensei em vários amigos e amigas. Ou "amigos e "amigas". Pensei na raiva que Pondé levaria até eles e no abandono que eles fariam da leitura. Na incoerência dos argumentos que eles tentariam usar comigo. Mas eu os diria que não me importo nem um pouco. Mas na minha cabeça, ficaria maquinando e chegaria à conclusão: "eu me importo. me importo até mais que eles. me importo o suficiente para gastar meu precioso tempo e o mais precioso ainda: o pensamento. e tudo isso para algo que eu não me importo? não, eu me importo sim. mas é mais fácil dizer que não. é como uma máscara. é o mesmo princípio da máscara que eles usam, mas a minha eu pensei sozinho. ou será que não?"

E aí entraria num ciclo vicioso. Somos todos iguais. Os que carregam o mundo e os que são idiotas. Estamos todos vinculados aos mesmo instintos, pois somos humanos, biologicamente falando, e estamos condicionados às mesmas influências. Por mais infinitas que elas possam parecer, elas são finitas. Estamos limitados por nossa própria grandeza. Tem um fim. Saca?
meio vesgo, pra somar com Sartre e fazer meu cérebro gozar com essa vesguice ideária.


Ponto final, antes que seja tarde.

sábado, 12 de abril de 2014

Com a morte na alma, de Jean-Paul Sartre [1949]


Eu tenho um bigode, Yuri.
Você deve estar achando que eu tenho algum tipo de fetiche com Sartre. Até agora foram 6 posts e 3 sobre o Frâncês vesguinho. Produtor do existencialismo e tudo mais. O cara é foda mesmo. No primeiro texto que aqui escrevi sobre o vesguinho e sua obra, disse que ele me ganhou por identificação. A princípio, dos personagens, mas à medida em que fui o conhecendo, identifiquei-me com o próprio também. Eu também sou vesgo. Meus olhos são corretamente alinhados, mas minha alma tem um tanto de vesguice.

E aí eu parti para ler o terceiro volume da trilogia de Sartre, já sabendo que ia me foder. E me fodi.

Tão livre que bota os peitos pra fora.

Liberdade, liberdade. Não tenho mais o que pensar sobre ela. Sartre parece que já pensou tudo, já escreveu tudo. Na base de metáforas, a filosofia dele está jogada nessa trilogia. E não é só Mathieu ou Brunet que está com a morte na alma. Todos nós. O fato de nós não podermos escolher se vamos nascer ou não, nos põe nesta condição: simplesmente temos que aceitar o fato da vida.
Alguns dirão que o suicídio é a forma escolher a outra opção à vida, mas não é. O suicídio é apenas a negação do que não pode ser negado. Assim como o pobre tem a capacidade de se endividar, o ser humano tem o poder de se matar. Mas ter o poder de se matar não implica ter o poder de morrer.
E essa prisão não é culpa do sistema capitalista, da cultura carnívora que herdamos ou mesmo da grandiosidade utópica do socialismo. É culpa da cegueira do universo, como diria Pondé (alvo de um texto futuro).

Gosto do Sartre porque ele não para a sua obra nela mesma. Enquanto ele fala sobre socialismo, parece estar falando sobre um turbilhão de coisas, que a uma primeira leitura parecem inexistentes. Gosto dele pela facilidade de falar de  tudo num nada. Numa linha de existência, ele condena os leitores à liberdade, assim como nas suas teorias. Confesso que estou com um frisson em aberto para ler "A náusea" e "O muro".



Quanto à forma que "Com a morte na alma" possui, tenho uma nota para comentar. Não é nada de original ou revolucionário para mim a forma que o livro é narrado ou escrito. A divisão segue a mesma dos dois primeiros livros, um capítulo para cada dia, nem sempre sendo dias seguidos. A mudança de visões não é tão cinematográfica quanto o segundo volume. A marca que fica registrada deste volume é o fato como o fim dos personagens aparece de forma sutil e dúbia. Ele dá um fim sem dar. Ninguém necessariamente morre, casa, vai lutar na fronte da Inglaterra ou sequer consegue reunir os membros do partido comunista. Ele dá uma resposta para tudo de uma forma tão leve, tão inexistente, que faz parecer que não houveram as mortes.

E talvez, nessa forma indiferente de dar os finais devidos para cada personagem, resida uma pitada de existencialismo: não importa muito como as coisas vão acontecer, no final, tudo vai dar merda. Todo mundo vai morrer. E mesmo que importe como as coisas acontecem, Sartre nos mostra que os finais estão presos nas nossas próprias limitações, nos buracos do enredo. Não há muitas alternativas.

Talvez mais que os outros livros da série, "Com a morte na alma" deixou fixa em minha memória cenas épicas. Cenas que eu lembro quase todos os dias, pois elas se instalaram no meu cotidiano. Um livro que ao final parece dar a resposta para todos os problemas de nossa vida besta. Mathieu assassinando seus demônios empunhado com o rifle que achou embaixo dos escombros. Com o sorriso banhado em sangue. Os pobres escravos do inferno presos no trem em direção à Alemanha. Os miseráveis momentos de dúvida e descrença na vida. E no final, perceber que não importava o destino. A vida continuaria a existir. O sol nasceria e tudo seria parte do mesmo filme, rodando no mesmo cinema velho. É como voltar pra casa no ônibus lotado: não importa o destino final, a vida vai continuar a mesma. Seguindo o sentido eterno de "pra frente" na linha temporal.

Há os homens que chegam cansados em casa, depois de jornadas de trabalho medonhas e dias recheados de vozes, reclamações e estresses dos mais diversos. Há o homens que não se importam nem mesmo com o fato de não se importar. Há aqueles que se perdem na cama e se acham na rua. Há aqueles que procuram resposta para todas as almas desnorteadas e para todos os problemas da vida besta que não podem ser resolvidos nas páginas dos livros. Salvo este último estará se deparar-se com esta trilogia. Porque todos os caminhos, são o caminho inevitável da liberdade. Tão inevitável que ele deixa de existir por sua condição outorgada.

Leiam Sartre. Se quiserem.


Pra quem quer saber mais sobre Sartre:

Documentário elaborado pelo próprio Sartre, onde ele senta e fala sobre sua vida durante 3 horas. Ainda não o assisti completo, pois quero ler mais da obra dele para me abstrair melhor das referências biográficas que ele joga no meio dos seus textos.
Sartre Por Ele Mesmo / Sartre par lui même (1976)

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Documentário produzido pela BBC sobre Sartre, abrangendo sua biografia e mesclando ela com sua obra literária e filosófica. Conta com depoimentos de amigos pessoais de Sartre e de estudiosos de sua obra. Esse eu vi todo e indico muito. É bastante didático e simples. Não é tão pesado quanto o que foi citado acima. É bem fiel e muito bem produzido. Com direito até pequenas montagens cinematográficas de trechos das obras de Sartre.

BBC - Humano, Demasiado Humano - Jean-Paul Sartre - O Caminho Para a Liberdade


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Entrevista com o professor Franklin Leopoldo, da USP, onde ele fala sobre a trilogia "Os caminhos da liberdade". Conteúdo bem específico que vai dar um panorama mais acadêmico para algumas coisas que eu disse em meus textos sobre a trilogia. Para quem leu, é bastante reflexiva a entrevista, pois dá conceitos e estruturas filosóficas as quais Sartre utilizou para escrever a série.

Literatura Fundamental 15 - Trilogia Os caminhos da liberdade - Franklin Leopoldo e Silva

Até a próxima, amorecos.

terça-feira, 25 de março de 2014

Livro #5: Sursis, de Jean-Paul Sartre [1947]



bugbugbug


Sursis, no dicionário online qualquer:
Suspensão ou adiamento da sentença condenatória ou da execução da pena com a finalidade de reeducar o criminoso, impedindo que delinquentes condenados a penas de reduzida duração fiquem privados da liberdade, restrição que se agrava pelo convívio com outros de maior periculosidade (CPP: arts. 581, XI, e 696 a 709; Lei nº 1.521/1951: art. 5º).

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Tente novamente mais tarde.
Já pensou se algum dia os homens deixassem de existir e as árvores crescessem sem nada para podá-las? Em quanto tempo tudo que o homem levou milênios pra construir estaria abaixo das copas, do cheiro doce da grama?
Eu faço faculdade. Saio de casa todos os dias para ir à aula, com meu caderno de anotações, alguns textos xerocados e uma vontade de ficar pelo caminho. Há tempos que a faculdade não é mais um sonho. Há tempos que virou uma roleta russa. Eu mesmo girei, girei e caí em meu curso.
E se você vier me dizer "faz o que tu gosta, é melhor", eu tenho uma resposta na ponta da língua: o que eu gosto não se aprende em faculdade. Nem na vida. Eu não gosto das coisas a ponto de querer lutar por elas. Estou fazendo o curso que faço porque caiu na minha porta e é mais fácil pra mim aceitar do que rodar o universo acadêmico todo para encontrar algo que me "fascine e me faça levantar feliz todos os dias".
Será que já ocorreu na cabeça de mais alguém que a gente tá preso?
Nós temos a liberdade de escolher, mas não a de concretizar. E já pensou que louco você querer escolher uma opção que não existe ainda? Já pensou que louco você não se adequar a nenhuma das cadeiras da faculdade por natureza?
Já pensou que louco você não se adequar a nenhuma das cadeiras da faculdade por natureza?

Não, eu não sou o revolucionário. Eu vou pra aula, estudo, ganho bolsa e faço estágio, pois assim as coisas ficam mais fáceis. Mas isso não impede que quando eu deite minha cabeça em meu travesseiro velho, liberto das agonias suburbanas, eu pense que há alguma coisa errada com tudo isso. O mundo parece que tá errado. As coisas que nos fazem acreditar, o amores que nós somos obrigados a ter.

"Afinal, eu parto porque não posso deixar de partir. - Um como um carneiro indo ao matadouro"

Poema "Canção Urbana", de Luís Carlos Guimarães

E Sartre me ensinou um pouco disso. Por mais livre que a gente esteja, a gente tá preso dentro da liberdade. Estamos condenados a sermos livres. O universo sempre vai dar um jeito maroto de meter a mão no meio dos sonhos de quem tem, no meio dos orgasmos de quem gosta e no meio do resultado da final do campeonato europeu. A copa do mundo está aí, os desmoronamentos esquecidos pela população nos morros do Rio de Janeiro, o adolescente que assassinou as crianças na escola do Realengo. Columbine.
Tudo segue um curso. O curso do erro, da prisão na realidade e das limitações do próprio homem como ser facilmente aliciado.

Tudo segue nos mesmos moldes, sempre. Até mesmo as maiores revoluções.

"Como todas as manhãs, Mathieu pensava <<Como todas as manhãs.>>"

E eu pareço errado em me sentir mal pelo estacionamento do acaso perante nós. São duas da manhã e eu estou me sentindo errado por pensar assim. Me olhar no espelho e ver que eu não tenho planos mirabolantes, não tenho desejo de transar com aquela guria gostosa da minha turma e nem ao menos sonho em ter uma família. Olhar no espelho e saber que eu não sou um cidadão decente, comum e me sentir mal. Tudo isso porque eu penso demais, leio demais e vejo as entrelinhas das artes.
E porque não ser um homem comum apenas? Ir pra faculdade, tirar boas notas e deitar na cama sem culpas e sem ressentimentos. Deitar na cama e sonhar com uma família, com um carro do ano e com um piquenique com a minha futura sogra. Tudo isso porque usei a capacidade peculiar do ser humano? Se esse é o diferencial do ser humano quanto ao resto dos animais, por favor, me transformem num boi e me matem para saciar seus vícios malévolos, que eu me sinto mais útil.

me matem para saciar seus vícios malévolos, que eu me sinto mais útil. 


"Exausto. Completamente exausto. Dantes, eu carregava os dias às costas, fazia-os passar de uma margem para a outra; agora são eles que me carregam"

Admiro os muçulmanos, os kamikazes de alguma das guerras das quais eu esqueci o nome. Admiro seitas ocultistas que dão um sentido para a morte baseadas numa fé coletiva. Parece-me mais sensato do que acordar todos os dias e ser um cidadão comum.

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Sursis - Jean- Paul Sartre

No segundo volume da trilogia "Os caminhos da liberdade", Jean-Paul Sartre nos mostra a flacidez da vida perante as obras do acaso. De como nosso papel na sociedade pode ser interferido pelo papel dos outros. Todos nós somos seres humanos, sujeitos à fraqueza do nosso sistema socio-econômico-cultural. Num enredo entrelaçado por várias histórias, Sartre narra quase que cinematograficamente um contexto diferente do período entre as duas grandes guerra. Especificamente, o período que se desenrolam os acontecimentos que dão impulso para o estopim da guerra.
Totalmente diferente do primeiro volume, Sartre apenas trás apenas os personagens de "A idade da Razão", como que para dar um desfecho para a história, acalmar o leitor que queria as tramas do primeiro livro resolvidas e para aproveitar da diversidade socio-biológico-cultural dos personagens perante os acontecimentos políticos e humanistas que degringolam ao longo das páginas.
Não é uma leitura muito fácil. Admito que minha edição em português de portugal e mal editada não contribuiu muito, mas Sartre invoca um estilo inovador de escrita (para mim): pula de uma cena pra outra sem dar aviso prévio. Sem pular um parágrafo, iniciar um novo capítulo ou, às vezes, nem sequer usar um ponto final. Começar uma frase na Espanha e terminar em Paris é um pouco complexo pra quem está acostumado com narrativas que segue uma linha de raciocínio mais literal e menos cinematográfica.
Os personagens de "A idade da razão" aparecem como plano de fundo de uma sacada maior. Um tanto moldados e com outras razões para viver, eles não são o foco principal da obra, ao contrário do primeiro livro, que tem foco na resolução do problema de Mathieu/Marcelle.
Mathieu aparece em Sursis mais resignado com a sua fraqueza em cumprir a promessa feita aos dezesseis anos. Aparece como mais velho e maduro, como quem aprendeu algo com os acontecimentos passados. Como um homem na idade da razão.
Ivitch, a musa que iluminou minha leitura no primeiro livro me fez passar po momentos de angústia na espera cansativa de que ela aparecesse logo. Mas, como era de se esperar, ela me surpreendeu bastante e fez o que tinha de fazer.
Além das figurinhas repetidas do primeiro livro, temos a aparição de novas: Gros-Louis, Philipe, Pierre, Maud e muitos outros, personagens que aparecem claramente para mostrar os vários tipos perdidos pela nossa humanidade e suas devidas posições quanto à fraqueza perante à liberdade de nosso mundo.
Com um enredo que flui como um puxar de gatilho, Sartre me atingiu. Tenho medo de ler o terceiro volume e receber um terceiro tiro no peito. 

Fiquem com uma foto bela do nosso amigo genial e subestimado pelos sucesso da nova literatura:
O pior disso tudo é que se eu o visse na rua, não daria nada por ele.

sábado, 8 de março de 2014

Livro #4: O espadachim de carvão, de Affonso Solano



Não li "Senhor dos Anéis" e não pretendo ler tão cedo. Nunca fui muito fã de histórias de fantasia, nem de trilogias. Eu gosto de obras possíveis. De obras que falam da vida besta e de seus rumos loucos e incontroláveis. "Então porque você queria tanto comprar 'Espadachim de carvão' desde que ele foi lançado, João?"
Pelo autor.
Há pessoas nessa vida que parecem carregar um pequeno pedaço de suas ideologias, de suas angústias e alegrias. E você, por vezes, fica a se perguntar como essas pessoas chegaram a pensar nas mesmas coisas que você. Quais experiências levaram ela a chegar no mesmo lugar que você chegou. E desde que conheci Affonso Solano (com dois "ff" de faca!), eu pensava nisso. Pensava em como a infância no pantanal, como a ideia de ser o irmão mais velho de alguém e como outras idiosincrasias dele fizeram ele formar uma mente, de alguma forma, parecida com a minha.
Acho que pessoas fodas fazem coisas fodas, seja o que for. As ilustrações do cara eram boas, as opiniões no MRG e os textos do TechTudo. Tudo que esse cara botava as mãos, no fim das contas, eu gostava de alguma forma. Então porque eu não iria querer o livro dele? Pelo simples fato de o livro se enquadrar nos padrões das epopéias fantásticas e eu não apreciar esse tipo de coisa?
Affonso Solano - com dois f de faca - e Adapak (na camisa)
Uma das maiores qualidades dos seres humanos é a capacidade de superar seus próprios limites, seja como for. Há pessoas que têm medo de altura e fazem terapias ao longo dos anos e no fim das contas, botam a cara na janela de uma cobertura de 30 andares. Há pessoas que comem carne a vida toda e, de uma hora pra outra, viram vegetarianos. Eu, em meus instintos mais humanos, fiquei louco pra comprar "Espadachim de Carvão".
Confesso que não foi a compra mais fácil do mundo, pois duas coisas não casavam: eu ter dinheiro e o estoque da livraria que frequento estar de pé. Por fim, há quase um mês, essas duas coisas casaram e eu adquiri "Espadachim de carvão". Não sei quanto as outras regiões do país, mas os ônibus aqui têm 3 portas: embarque, desembarque e uma porta que fica no meio do ônibus, que é uma mescla de emergência e acesso a cadeirantes. Como a porcentagem de cadeirantes é bem mínima, principalmente nas últimas linhas da noite, a porta do meio quase nunca abre, e vira alternativa de assento para quando o ônibus está cheio. Principalmente quando ler em ônibus em movimento se torna uma tarefa difícil.
Foi ali que conheci Adapak. Ao chegar em casa, li mais um pouco e fui percebendo que a fantasia, na verdade, era um aumento de realidade. Kurgala, na verdade, era o nosso mundo visto com outras lentes. E eu me sentia um pouco Adapak.


Aos poucos, quando fui avançando na leitura, percebi cada vez mais as ideologias que eu e Solano tínhamos em comum, perdidas em meio aos diálogos extraordinários de personagens extremamente bem construídos.
O livro tem um ritmo que lhe faz não querer parar de ler, pois conta várias pequenas histórias de formas paralelas e que lhe prendem cada vez mais à história central. Parecia uma técnica bem pensada para tornar o livro vendável ou algo do tipo, mas pouco importa: Solano estava como sempre esteve, e para mim, isso bastava.
Apesar de o livro usar de vários artifícios para não deixar o leitor descansar o livro, eu interrompi a leitura muitas vezes. E não por ficar entediado ou por achar outra coisa mais interessante pra fazer, mas por não conseguir digerir tudo que me era posto. Era preciso pausas para pegar as metáforas, fazer analogias e sorrir sobre as verdades que me eram expostas ali e que já me tinham sido apresentadas de outras formas pelo Solano. Eram as ideologias que me ligavam de uma forma estranha a ele.

Para mim a arte sempre teve dois gumes: o escapismo da realidade através da distração que ela nos propicia e a metáfora para a vida real, que nos faz aprender com ela. E eu entendi que era por isso que eu não gostava de Aventuras Épicas, pois elas quase nunca casavam o escapismo com uma metáfora de uma forma que eu achasse realmente instigante e interessante. Mas como era de se esperar, Affonso conseguiu fazer isso para mim, e pelo que vejo, com muito mais pessoas.

A obra é de uma grandiosidade inestimável para mim, agora que a tenho na minha estante. Talvez não seja para todo mundo do jeito que foi pra mim, mas isso também é de se esperar. Nem todo mundo vai atar as linhas em nós. Nem todo mundo vai colocar as experiências que eu coloquei na leitura. Mas de uma forma ou de outra, indico este livro para todas as pessoas, de todas as idades. E sabe o que eu acho? Acho que os anos passarão e "Espadachim de Carvão" não deixará de ser a obra atual que é.


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Para completar a experiência com a obra, aconteceu algo extraordinário, que me deixou bastante feliz. Como já disse, acompanho os vários trabalhos do Affonso Solano e aprecio a pessoa por trás de todos eles. E como um seguidor nato de uma figura internética, sou seguidor do Affonso no Facebook. Quando acabei a leitura, me senti praticamente obrigado a mandar uma mensagem, seja lá o que eu fosse escrever. Tudo que a obra despertou em mim não podia ficar simplesmente aqui dentro e nas indicações para os meus amigos e amigas. Mandei uma inbox pro cara. Segue:




Até aí, de boas. Parabéns, cara. Você é foda. Obrigado por escrever uma das obras mais fantásticas que eu já li. Mas aí vem o ápice da parada: ELE RESPONDEU!

Segue pra vocês a resposta:
Pode não ser muito para a maioria das pessoas, mas eu fiquei muito feliz com a resposta. E pode ter certeza de que essa foi a mensagem mais foda que me mandaram no Facebook.



quarta-feira, 5 de março de 2014

Livro #3: Mulheres - de Charles Bukowski [1978]

Talento.
O que se espera de um livro que fale sobre mulheres?
Tudo, menos que se perca a vontade de ter um relacionamento, seja ele fixo ou casual.
Bukowski sendo mais uma vez o dedo sujo no meio da ferida limpa que parece ser nossa realidade bonita. Sabe, cresci numa família um tanto tradicional, onde se cresce, se estuda e então torna-se alguém na vida. Numa família de classe média baixa que acha que tem poder de consumo e acha que isso é algo a se valer. Na verdade, uma família sem méritos, que se vangloria no Tio, no Avô, que fizeram alguma coisa para o mundo.
Cresci numa família onde se deve trabalhar, beber no fim de semana pra esquecer a dureza da vida  e rir no domingo de noite com o programa de humor na TV.
Aos 10 anos, numa visita casual ao interior, comprei um livro pra ler na viagem. Um casual: Misto Quente. E de repente, percebi que tinha um pouco de mim naquelas páginas.
Lembro que o livro começava com a primeira lembrança de Henry Chinaski e terminava com este já numa idade onde se pode considerar-se adulto, vendo o declínio do mundo na pólvora de uma guerra.
Eu era o Henry Chinaski, derrotado e oprimido sem ter noção disso, embaixo da mesa da cozinha. E quando ele passou a descrever seu envelhecimento, ficou a questão na minha cabeça: será que eu me tornaria aquelas coisas que ele estava vomitando nas páginas daquele livro?

Sim, aqui estou. Derrotado antes de chegar à maioridade.

Em "Mulheres", de 1978, Bukowski fala sobre sua relação com as bocetas, peitos, bundas e por consequência, as mulheres e sobre seus questionamentos existenciais, camuflados em cada copo de Vodca+7up, em cada vinho barato embrulhado em sacos de papel pardo. E eu me pergunto se vou me tornar tudo que ele se tornou.
Acredite ou não: eu já me tornei.Só não tenho ainda os culhões necessários para sair do meu quarto e combater a "depressão" que me assola. Só não tenho o que ele tinha disponível para ser ele mesmo: uma fé desesperada na desgraça do mundo.
O que há de diferente de mim aqui, deitado, de cuecas e escrevendo? Se sentindo deslocado em todos os lugares em que vai, se sentido derrotado pelo pensamento errado que todas as pessoas têm e sem se preocupar muito com o que vai vir depois.
Eu gosto de ficar deitado na minha cama e me sinto muito mais útil para o mundo aqui, sem cobrar espaço dentro do ônibus, sem ser mais uma cadeira ocupada na faculdade ou no cinema. E se eu tivesse como, terminaria meus dias com mulheres ignóbeis e com vodca barata. Definharia o fio de resto dee vida com um suicídio lento à base de álcool etílico, não ligando para regras de acentuação da nova ortografia.
Mas Buk sempre foi sincero consigo mesmo,e eu peco aí. Eu minto para alimentar algo que nem sei o que é, mas que me faz querer levantar da cama de alguma forma, querer conseguir um emprego decente e uma casa decente. Apesar de saber que o meu João interno quer se derreter nas vodcas e nas bocetas da vida.

Uma mente pessimista diria que este livro é horrível e que acabou o meu relacionamento. Mas eu não digo isso. O livro é fantástico e meu relacionamento nem devia ter começado.
Por mais que eu procure dar alguma ênfase a qualquer coerência de ideias nesse texto, nada vai se encaixar, pelo simples fato de ser eu, João Neto Guimarães, falando sobre o filho da puta grotesco e aterrorizante do Bukowski. Nada que eu diga vai valer como um argumento válido, pois ninguém passou tanto tempo pensando na porra da vida da forma que esse velho ensina nas entrelinhas. Ninguém percebeu a metáfora dos navios de forma tão colossal. Ninguém que curte as páginas de frases do bukowski no facebook vai sacar as coisas como eu saquei. Não estou me chamando de gênio ou de completo entendedor do Charles. Só digo que Ninguém vai ter o mesmo olhar que eu pras coisas dele, porque ninguém viveu as coisas que eu vivi, nem tem o olhar que eu tenho. Ninguém vê o mundo da forma como eu vejo. E isso não se chama vanguarda intelectual ou individualismo, é apenas teoria da identidade.
E se alguém vir as coisas do jeito que eu vejo, não precisa das minhas palavras para confirmarem nada.
Lembrem-me de eu não fazer mais críticas sobre Bukowski, não vão dar em nada, apenas em enchimento de linguiça pósmodernista e pagadora de cult das redes sociais.
Aí eu olho pro lado e pergunto "porquê?" em voz baixa, às 8 e 9 da manhã, sem ainda ter conseguido dormir. Deve haver mais. A vida não pode ser só isso. (risos)