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| Talento. |
Tudo, menos que se perca a vontade de ter um relacionamento, seja ele fixo ou casual.
Bukowski sendo mais uma vez o dedo sujo no meio da ferida limpa que parece ser nossa realidade bonita. Sabe, cresci numa família um tanto tradicional, onde se cresce, se estuda e então torna-se alguém na vida. Numa família de classe média baixa que acha que tem poder de consumo e acha que isso é algo a se valer. Na verdade, uma família sem méritos, que se vangloria no Tio, no Avô, que fizeram alguma coisa para o mundo.
Cresci numa família onde se deve trabalhar, beber no fim de semana pra esquecer a dureza da vida e rir no domingo de noite com o programa de humor na TV.
Aos 10 anos, numa visita casual ao interior, comprei um livro pra ler na viagem. Um casual: Misto Quente. E de repente, percebi que tinha um pouco de mim naquelas páginas.
Lembro que o livro começava com a primeira lembrança de Henry Chinaski e terminava com este já numa idade onde se pode considerar-se adulto, vendo o declínio do mundo na pólvora de uma guerra.
Eu era o Henry Chinaski, derrotado e oprimido sem ter noção disso, embaixo da mesa da cozinha. E quando ele passou a descrever seu envelhecimento, ficou a questão na minha cabeça: será que eu me tornaria aquelas coisas que ele estava vomitando nas páginas daquele livro?
Sim, aqui estou. Derrotado antes de chegar à maioridade.
Em "Mulheres", de 1978, Bukowski fala sobre sua relação com as bocetas, peitos, bundas e por consequência, as mulheres e sobre seus questionamentos existenciais, camuflados em cada copo de Vodca+7up, em cada vinho barato embrulhado em sacos de papel pardo. E eu me pergunto se vou me tornar tudo que ele se tornou.
Acredite ou não: eu já me tornei.Só não tenho ainda os culhões necessários para sair do meu quarto e combater a "depressão" que me assola. Só não tenho o que ele tinha disponível para ser ele mesmo: uma fé desesperada na desgraça do mundo.
O que há de diferente de mim aqui, deitado, de cuecas e escrevendo? Se sentindo deslocado em todos os lugares em que vai, se sentido derrotado pelo pensamento errado que todas as pessoas têm e sem se preocupar muito com o que vai vir depois.
Eu gosto de ficar deitado na minha cama e me sinto muito mais útil para o mundo aqui, sem cobrar espaço dentro do ônibus, sem ser mais uma cadeira ocupada na faculdade ou no cinema. E se eu tivesse como, terminaria meus dias com mulheres ignóbeis e com vodca barata. Definharia o fio de resto dee vida com um suicídio lento à base de álcool etílico, não ligando para regras de acentuação da nova ortografia.
Mas Buk sempre foi sincero consigo mesmo,e eu peco aí. Eu minto para alimentar algo que nem sei o que é, mas que me faz querer levantar da cama de alguma forma, querer conseguir um emprego decente e uma casa decente. Apesar de saber que o meu João interno quer se derreter nas vodcas e nas bocetas da vida.
Uma mente pessimista diria que este livro é horrível e que acabou o meu relacionamento. Mas eu não digo isso. O livro é fantástico e meu relacionamento nem devia ter começado.
Por mais que eu procure dar alguma ênfase a qualquer coerência de ideias nesse texto, nada vai se encaixar, pelo simples fato de ser eu, João Neto Guimarães, falando sobre o filho da puta grotesco e aterrorizante do Bukowski. Nada que eu diga vai valer como um argumento válido, pois ninguém passou tanto tempo pensando na porra da vida da forma que esse velho ensina nas entrelinhas. Ninguém percebeu a metáfora dos navios de forma tão colossal. Ninguém que curte as páginas de frases do bukowski no facebook vai sacar as coisas como eu saquei. Não estou me chamando de gênio ou de completo entendedor do Charles. Só digo que Ninguém vai ter o mesmo olhar que eu pras coisas dele, porque ninguém viveu as coisas que eu vivi, nem tem o olhar que eu tenho. Ninguém vê o mundo da forma como eu vejo. E isso não se chama vanguarda intelectual ou individualismo, é apenas teoria da identidade.
E se alguém vir as coisas do jeito que eu vejo, não precisa das minhas palavras para confirmarem nada.
Lembrem-me de eu não fazer mais críticas sobre Bukowski, não vão dar em nada, apenas em enchimento de linguiça pósmodernista e pagadora de cult das redes sociais.
Aí eu olho pro lado e pergunto "porquê?" em voz baixa, às 8 e 9 da manhã, sem ainda ter conseguido dormir. Deve haver mais. A vida não pode ser só isso. (risos)


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