sábado, 8 de março de 2014

Livro #4: O espadachim de carvão, de Affonso Solano



Não li "Senhor dos Anéis" e não pretendo ler tão cedo. Nunca fui muito fã de histórias de fantasia, nem de trilogias. Eu gosto de obras possíveis. De obras que falam da vida besta e de seus rumos loucos e incontroláveis. "Então porque você queria tanto comprar 'Espadachim de carvão' desde que ele foi lançado, João?"
Pelo autor.
Há pessoas nessa vida que parecem carregar um pequeno pedaço de suas ideologias, de suas angústias e alegrias. E você, por vezes, fica a se perguntar como essas pessoas chegaram a pensar nas mesmas coisas que você. Quais experiências levaram ela a chegar no mesmo lugar que você chegou. E desde que conheci Affonso Solano (com dois "ff" de faca!), eu pensava nisso. Pensava em como a infância no pantanal, como a ideia de ser o irmão mais velho de alguém e como outras idiosincrasias dele fizeram ele formar uma mente, de alguma forma, parecida com a minha.
Acho que pessoas fodas fazem coisas fodas, seja o que for. As ilustrações do cara eram boas, as opiniões no MRG e os textos do TechTudo. Tudo que esse cara botava as mãos, no fim das contas, eu gostava de alguma forma. Então porque eu não iria querer o livro dele? Pelo simples fato de o livro se enquadrar nos padrões das epopéias fantásticas e eu não apreciar esse tipo de coisa?
Affonso Solano - com dois f de faca - e Adapak (na camisa)
Uma das maiores qualidades dos seres humanos é a capacidade de superar seus próprios limites, seja como for. Há pessoas que têm medo de altura e fazem terapias ao longo dos anos e no fim das contas, botam a cara na janela de uma cobertura de 30 andares. Há pessoas que comem carne a vida toda e, de uma hora pra outra, viram vegetarianos. Eu, em meus instintos mais humanos, fiquei louco pra comprar "Espadachim de Carvão".
Confesso que não foi a compra mais fácil do mundo, pois duas coisas não casavam: eu ter dinheiro e o estoque da livraria que frequento estar de pé. Por fim, há quase um mês, essas duas coisas casaram e eu adquiri "Espadachim de carvão". Não sei quanto as outras regiões do país, mas os ônibus aqui têm 3 portas: embarque, desembarque e uma porta que fica no meio do ônibus, que é uma mescla de emergência e acesso a cadeirantes. Como a porcentagem de cadeirantes é bem mínima, principalmente nas últimas linhas da noite, a porta do meio quase nunca abre, e vira alternativa de assento para quando o ônibus está cheio. Principalmente quando ler em ônibus em movimento se torna uma tarefa difícil.
Foi ali que conheci Adapak. Ao chegar em casa, li mais um pouco e fui percebendo que a fantasia, na verdade, era um aumento de realidade. Kurgala, na verdade, era o nosso mundo visto com outras lentes. E eu me sentia um pouco Adapak.


Aos poucos, quando fui avançando na leitura, percebi cada vez mais as ideologias que eu e Solano tínhamos em comum, perdidas em meio aos diálogos extraordinários de personagens extremamente bem construídos.
O livro tem um ritmo que lhe faz não querer parar de ler, pois conta várias pequenas histórias de formas paralelas e que lhe prendem cada vez mais à história central. Parecia uma técnica bem pensada para tornar o livro vendável ou algo do tipo, mas pouco importa: Solano estava como sempre esteve, e para mim, isso bastava.
Apesar de o livro usar de vários artifícios para não deixar o leitor descansar o livro, eu interrompi a leitura muitas vezes. E não por ficar entediado ou por achar outra coisa mais interessante pra fazer, mas por não conseguir digerir tudo que me era posto. Era preciso pausas para pegar as metáforas, fazer analogias e sorrir sobre as verdades que me eram expostas ali e que já me tinham sido apresentadas de outras formas pelo Solano. Eram as ideologias que me ligavam de uma forma estranha a ele.

Para mim a arte sempre teve dois gumes: o escapismo da realidade através da distração que ela nos propicia e a metáfora para a vida real, que nos faz aprender com ela. E eu entendi que era por isso que eu não gostava de Aventuras Épicas, pois elas quase nunca casavam o escapismo com uma metáfora de uma forma que eu achasse realmente instigante e interessante. Mas como era de se esperar, Affonso conseguiu fazer isso para mim, e pelo que vejo, com muito mais pessoas.

A obra é de uma grandiosidade inestimável para mim, agora que a tenho na minha estante. Talvez não seja para todo mundo do jeito que foi pra mim, mas isso também é de se esperar. Nem todo mundo vai atar as linhas em nós. Nem todo mundo vai colocar as experiências que eu coloquei na leitura. Mas de uma forma ou de outra, indico este livro para todas as pessoas, de todas as idades. E sabe o que eu acho? Acho que os anos passarão e "Espadachim de Carvão" não deixará de ser a obra atual que é.


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Para completar a experiência com a obra, aconteceu algo extraordinário, que me deixou bastante feliz. Como já disse, acompanho os vários trabalhos do Affonso Solano e aprecio a pessoa por trás de todos eles. E como um seguidor nato de uma figura internética, sou seguidor do Affonso no Facebook. Quando acabei a leitura, me senti praticamente obrigado a mandar uma mensagem, seja lá o que eu fosse escrever. Tudo que a obra despertou em mim não podia ficar simplesmente aqui dentro e nas indicações para os meus amigos e amigas. Mandei uma inbox pro cara. Segue:




Até aí, de boas. Parabéns, cara. Você é foda. Obrigado por escrever uma das obras mais fantásticas que eu já li. Mas aí vem o ápice da parada: ELE RESPONDEU!

Segue pra vocês a resposta:
Pode não ser muito para a maioria das pessoas, mas eu fiquei muito feliz com a resposta. E pode ter certeza de que essa foi a mensagem mais foda que me mandaram no Facebook.



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