sexta-feira, 9 de maio de 2014

resignação

Ao som de “Eu não tenho um barco, disse a árvore”, de Cícero.

As garrafas de champagne seguem estourando à meia noite do primeiro dia do ano, os motoristas de ônibus continuam fazendo suas greves e minha rinite alérgica me ataca nos meses de chuva.
Eu acho que esqueci o cheiro dela.
Os maços de dinheiro nos bolsos do traficante, as cartas na caixa de correspondência e as flores nos túmulos dos escritores mortos.
Eu acho que esqueci o cheiro dela.
É difícil tentar não parecer clichê, repetitivo e doloso. É difícil não parecer estar numa novela das oito ou num filme de comédia romântica. Queria acreditar que tu vai abrir a porta do meu quarto às 3 e cinquenta da manhã e vai me mostrar que teu cheiro está guardado numa gaveta empoeirada da minha memória.
Eu ainda tô aqui, escrevendo essas coisas que você dizia gostar. E dizia metade pra me agradar e a outra metade porque se achava um tanto no meio dessas idiotices que me saem de forma corrosiva nessas madrugadas em que eu aprecio a apatia do teto do meu quarto. Acredite ou não, minha mente ainda é a mesma. Ainda continuo são, naquela loucura meio revolucionária que você dizia amar. Mas dizia, em parte, pra me agradar e em parte porque gostava mesmo desse meu desejo indevido de dizer com todas as letras que “não fazer nada é uma arte”.
Se tu ligasse agora, não apareceria mais teu nome abaixo de uma foto meiga. É, eu tentei te esquecer há algum tempo, mas não deu certo. “Como tudo na tua vida”, você diria. É, baby, nada dá certo comigo. Sou cheio de erros, não cumpro minhas promessas e nem completo as coisas que começo, mas diz pra tua cabeça que tu não gostava do pedaço-de-ser-humano-inerte-sem-qualidades que eu sempre fui. Diz pra tua cabeça, diz. Tenta mentir pra ti mesma. hahaha
É um fato: se você me ligasse agora não apareceria teu nome, porque na minha agenda eu dou preferência para o disk-entrega-d’água ao invés de desilusões amorosas. Mas tá aqui outro fato, baby: eu sei a porra do seu número. Cada um deles. Aquele zero e aquele 17. Sei sim. E se eu tivesse coragem eu ligava agora e mandava tu tomar no cu. Mentira, eu ligava só pra ouvir você dizendo alô e depois voltar a dormir sem entender porra nenhuma.
Eu acho que esqueci teu cheiro.
É, eu sonhei contigo. Eu ganhei aquela bolsa que eu queria, tive aquelas brigas com minha família, resisti àquela ida no psicólogo tão adiada. Peguei uns livros emprestados e fui no cinema sozinho. Desisti daquele curso que tu odiava e completei o ensino médio antes do esperado.
Mas quando eu vou deitar na cama todos os dias, eu olho pro meu teto e me pergunto “e daí, João?”.
E daí que todos os meus amigos me chamam do apelido que tu colocou, e daí que foi muita coincidência eu estar ouvindo tua música preferida da primeira vez que a gente se falou, e daí que o menino-prodígio-das-notas-altas-em-algoritimo sente tua falta nas noites de insônia. Sente falta do riso bobo da tua irmã mais nova, sente falta das conversas sem nexo com a tua irmã mais velha e sente falta de fazer média com teus pais.
Sabe, eu nunca fui bom aluno na escola nem fui exemplo de nada bom. Eu sei que seus pais perguntariam a qualquer imbecil que fosse pseudo-namorar você sobre o futuro e sobre as notas da escola. Mas eu, baby, eu não tinha perspectivas, sonhos ou nada. E seus pais sabiam, tava escrito numa plaquinha em cima da minha testa. E mesmo assim, eles fingiram gostar de mim, porque de alguma forma eles entenderam que eu te salvei. E eu te salvei.
Mas e aí?
Tá aí.
Sabe o que é pior? É que esse texto pode ser entregue pra muita gente com algumas poucas alterações.
Eu não sei escrever essas coisas com personagens.
:)

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