sexta-feira, 18 de julho de 2014

Unhas

Minhas unhas estão enormes, tão grandes pra caramba. Tava percebendo isso enquanto fazia uma leitura chata, daquelas bem sacais, sabe? As palavras lidas já não codificavam nada na minha cabeça e eu estava imerso nas entrelinhas do meu pensamento. Puta que pariu, essas unhas tão grandes pra caralho! Se fosse grande por ser grande, tudo bem. Mas não é simples assim. Elas estão sujas e afiadas, andam machucando muita gente. Gente que eu não gostaria de arranhar ou de assustar com esse aspecto tenebroso. Acho que a sujeira vai aumentando toda vez que arranho alguém. Mas é sem querer, tá ligado? Eu não quero ferir ninguém, mas sempre acaba acontecendo. Porra, essas unhas realmente estão enormes. Às vezes eu tento esquecer disso. Mas toda vez que esqueço, acabo por arranhar alguém e me lembro dessas coisas monstras que tenho nos dedos. Se eu já pensei em cortá-las? É óbvio. Mas não é uma tarefa simples, elas voltam a crescer, a acumular sujeira; também há os relatos alheios e as diversas histórias tristes que os outros contam a respeito das malditas unhas. 
Pra ser totalmente sincero, a ideia de cortar minhas mãos me parece mais atraente. E mais fácil pra acabar com esses problemas de maneira definitiva. Quero uma folga pra mim e pros outros. Quero fugir sozinho pra bem longe ou que os outros fujam juntos, pra eu poder ficar “enfim só”. Não quero ninguém pra me lembrar do que eu sou; ninguém pra falar das minhas unhas. Quero encontrar refúgio pras minhas mãos. Bolsos, luvas, outras mãos, sei lá... 

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