domingo, 9 de fevereiro de 2014

Livro #1:Morangos mofados - Caio F. Abreu - [1983]


Caio passou seus últimos dias cuidando do seu Jardim, na casa de sua mãe.


A arte não tem tempo

Não conhecia Caio. Na verdade, o conhecia sim, mas era o Caio dissimulado, amoroso e clichê que perambulava pelos perfis das redes sociais pseudo-cults. N'"Os sobreviventes" já foi um pedaço de mim cortado pela faca amolada da realidade paralela de Caio. Em "O dia em que saturno entrou em escorpião" foi-se outro pedaço. Apesar de não entender nada de astrologia, viadagem ou conhaque, Caio ia acertando suas flechas em mim aos poucos, como quem não quer acertar. Como quem quer acertar mas não anuncia isso aos gritos.

Uma transa no meio de uma madrugada chuvosa entre Bukowski e Drummond. E sem preconceitos ou esteriótipos de sociedade: temos como resultado uma bicha que devorou minha cabeça com suas palavras. Um cara que, mesmo preso nos anos oitenta e pouco, com sua vitrola e seus ideais, conseguiu fuzilar-me em meio às tecnologias e transporte públicos dos anos 10.

Fui flagrado lendo Caio num intervalo da faculdade e a professora me falou que o livro era uma crítica social aos anos 80 e todas as suas repressões e ideais que lá morreram. Eu então me prostrei a pensar: estaria eu com minha mente presa há 30 anos atrás?
Eu nem sequer tinha essa idade, mas havia algo de mim dentro de Caio - ou seria algo dele dentro de mim?. Eu também tinha um gosto estranho de morangos mofados na boca.

É a década de 10 revirando o estômago do tempo.



Os personagens são como amigos, concluo com uma amiga. E todos os personagens de Caio em "Morangos mofados" me parecem velhos conhecidos. Apesar de uma indevida introspecção, eles têm um pouco de mim e deles mesclando na essência do ser. E o que são os amigos afinal?

Na verdade, todos os contos me parecem um só. Todos os personagens me parecem um. Que na verdade, também se parece comigo. Todos eles com suas bebidas, seus trejeitos, seus cigarros, baseados, carreiras de cocaína, amores sujos e doentios, beijos amargos e um gosto amargo de morangos mofados. Todos os cenários são sépias. Aqueles que a descrição não diz se está amanhecendo ou anoitecendo. Só sabemos que a luz lambe as calçadas de leve e se derrama por entre os prédios.

Morangos é uma obra de arte. Não sei se a Obra-prima de Caio, já que foi minha primeira vez com ele, mas é uma obra sem dúvidas. Uma obra pintada à aquarela. Um quadro surrealista da realidade passageira que habita o meu quarto.

E que Caio empunhe sua arma e me fuzile mais vezes.

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